Tavares e Fregni - OAJ com CPM disfuncional


 TAVARES, Daniela Regina Brandão; OKAZAKI, Jane Erika Frazão; SANTANA, Márcia Valéria de Andrade; et al. Motor cortex transcranial direct current stimulation effects on knee osteoarthritis pain in elderly subjects with dysfunctional descending pain inhibitory system: A randomized controlled trial. Brain Stimulation, v. 14, p. 477-487, 2021. DOI: 10.1016/j.brs.2021.02.018.


Objetivos do artigo

O objetivo principal do artigo foi avaliar se a estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS) reduz a dor da osteoartrite do joelho (KOA) em idosos com sistema inibitório descendente de dor disfuncional (DPIS). Além disso, os objetivos secundários incluíram a avaliação da segurança e dos efeitos do tDCS na qualidade de vida relacionada à saúde, sintomas específicos da doença, função física, modulação condicionada da dor (CPM), limiar de pressão à dor (PPT) e testes sensoriais quantitativos.


Materiais e Métodos em Tópicos

  1. Amostra total:

    • 104 participantes foram incluídos, com média de idade de 73,9 anos e 84,6% do sexo feminino.
  2. Amostra por grupo:

    • Grupo ativo: 51 participantes.
    • Grupo controle (sham): 53 participantes.
  3. Critérios de inclusão:

    • Idade ≥ 60 anos.
    • Diagnóstico de osteoartrite do joelho conforme os critérios do Colégio Americano de Reumatologia.
    • Dor na escala numérica (NRS) com pontuação média ≥ 4 nos últimos 6 meses.
    • Redução inferior a 10% na intensidade da dor durante o teste CPM.
  4. Critérios de exclusão:

    • Contraindicações ao tDCS, doenças crônicas descompensadas, comprometimento cognitivo, depressão grave, epilepsia, histórico de traumatismo craniano, uso recente de carbamazepina e abuso de álcool.
  5. Detalhes da intervenção:

    • 15 sessões diárias de tDCS (20 minutos cada), com intensidade de corrente de 2 mA.
    • Ânodo posicionado sobre o córtex motor primário contralateral ao joelho mais afetado e cátodo sobre a área supraorbital contralateral.
    • Grupo sham recebeu uma simulação sem estimulação efetiva.
  6. Detalhes do grupo controle:

    • O grupo sham seguiu o mesmo protocolo de posicionamento de eletrodos, mas sem estimulação contínua (apenas ramp-up/down de 30 segundos no início e no final).

Resultados do Trabalho

  1. Desfecho Primário:

    • Redução da intensidade da dor:
      • Grupo ativo de tDCS apresentou redução significativamente maior na dor (índice do Brief Pain Inventory - BPI) ao final das 15 sessões.
      • Diferença entre grupos: 1,59 pontos (IC 95%, 0,95–2,23; p < 0,001).
      • Tamanho do efeito: Cohen’s d = 0,58.
  2. Desfechos Secundários:

    • Modulação condicionada da dor (CPM):
      • Melhoras significativas no grupo ativo:
        • Aumento do limiar de pressão à dor (CPM-pressão) no joelho: diferença média de -17,61 pontos (IC 95%, -31,08 a -4,15; p = 0,01).
        • Redução da percepção de dor durante CPM na mão (CPM-dor): diferença média de 14,82 pontos (IC 95%, 3,78 a 25,85; p = 0,01).
    • Outras medidas de dor:
      • Redução da dor na escala visual analógica (VAS) no grupo ativo: diferença média de 1,09 pontos (IC 95%, 0,34 a 1,85; p = 0,005).
  3. Sustentação dos Efeitos:

    • Os efeitos na redução da dor não foram sustentados no acompanhamento de 2 meses:
      • Diferença média na pontuação do BPI entre o início e o final do acompanhamento: 0,67 pontos (IC 95%, -0,08 a 1,43; p = 0,08).
  4. Segurança e Tolerabilidade:

    • Eventos adversos leves e moderados:
      • Maior incidência no grupo ativo: dor no couro cabeludo (p = 0,03) e vermelhidão na pele (p < 0,001).
      • Maior incidência no grupo sham: formigamento (p < 0,001) e dores de cabeça (p < 0,01).
    • Sem efeitos adversos graves relatados.
  5. Resultados Não Significativos:

    • Não houve diferenças significativas entre os grupos em:
      • Função física (Timed Up and Go Test e One Leg Stance Test).
      • Qualidade de vida relacionada à saúde (escores físicos e mentais do SF-12).
      • Limiar de dor à pressão (PPT) em mão e joelho.
      • Testes sensoriais quantitativos.
  6. Análise de Blinding (Cegamento):

    • Blinding foi eficaz, pois os participantes não identificaram corretamente o grupo em que estavam alocados.

Considerações Finais dos Resultados

  • Efeitos positivos imediatos:
    • A tDCS ativa foi eficaz na redução da dor e melhora da modulação inibitória descendente da dor (DPIS) ao final do tratamento.
  • Limitações de longo prazo:
    • Os efeitos benéficos não foram mantidos após o período de acompanhamento.

Discussão

  1. Eficácia do tDCS para Redução da Dor

    • O estudo mostrou que 15 sessões de tDCS foram eficazes para reduzir a dor na osteoartrite do joelho (KOA), com um tamanho de efeito moderado (Cohen's d = 0,58).
    • Comparação com estudos anteriores:
      • A eficácia observada é semelhante à de meta-análises que reportaram um efeito de tDCS em condições de dor crônica como fibromialgia (tamanho de efeito = 0,59)​.
    • As melhoras podem ser atribuídas à modulação da dor via descending pain inhibitory system (DPIS), um mecanismo alterado em idosos​.
  2. Limitações na Sustentação dos Efeitos

    • A falta de sustentação dos efeitos após o término da intervenção foi alinhada com estudos anteriores que sugerem que o tDCS precisa de combinações com outras terapias para prolongar seus benefícios​​.
    • A baixa duração dos efeitos pode estar relacionada às características neuroanatômicas da população idosa, como atrofia cerebral e alterações na conectividade funcional​​.
  3. Impacto do Número de Sessões

    • A escolha de 15 sessões foi baseada em estudos prévios, que indicaram que esse número é suficiente para atingir benefícios clínicos significativos​.
    • Estudos sugerem que protocolos com sessões mais frequentes ou manutenção periódica podem gerar efeitos mais duradouros​​.
  4. Resultados Secundários Limitados

    • Apesar da redução na dor, não houve melhora significativa em medidas de função física ou qualidade de vida. Isso pode ser devido à ausência de terapias combinadas, como exercícios físicos, que poderiam potencializar os benefícios​​.
  5. Comparação com Outras Intervenções

    • O tamanho do efeito do tDCS foi maior que o de anti-inflamatórios não esteroidais (NSAIDs) para a dor na KOA (tamanho de efeito = 0,32), destacando seu potencial como tratamento seguro para idosos​​.

Conclusão dos Autores

  1. Principais Conclusões

    • O tDCS foi eficaz e seguro na redução da dor e na melhora do DPIS em idosos com KOA, mas os efeitos foram temporários e não se mantiveram após 2 meses de acompanhamento.
    • Apesar dos benefícios imediatos, os autores sugerem que protocolos combinados ou parâmetros ajustados de tDCS são necessários para prolongar os efeitos terapêuticos.
  2. Alinhamento com os Resultados

    • A conclusão está diretamente atrelada aos achados do estudo:
      • Melhora na dor e modulação da dor foram confirmadas no grupo ativo durante o tratamento.
      • Limitação temporal dos efeitos também foi reportada, apontando a necessidade de otimização do protocolo.
  3. Recomendações para Estudos Futuros

    • Investigar combinações de tDCS com outras intervenções, como exercícios físicos ou terapias farmacológicas, para explorar efeitos sinérgicos.
    • Avaliar protocolos com maior número de sessões ou manutenção periódica de estimulação para prolongar os benefícios​.

Explicação da Figura 2

Descrição da Figura

A figura 2 mostra a mudança nos escores de dor do Brief Pain Inventory (BPI) ao longo das visitas realizadas durante o estudo, comparando o grupo que recebeu estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS) ativa com o grupo sham (controle).


Elementos da Figura

  1. Eixos:

    • O eixo X (horizontal): Representa os momentos de avaliação durante o estudo:
      • Visita 2: Linha de base (antes do início da intervenção).
      • Visitas intermediárias (6, 11): Avaliações após 5 e 10 sessões.
      • Visita 16: Avaliação ao final das 15 sessões de intervenção.
      • Visitas de acompanhamento (17, 18, 19): Avaliações realizadas 15 dias, 1 mês e 2 meses após o término da intervenção.
    • O eixo Y (vertical): Representa as mudanças no escore do BPI, medindo a intensidade da dor percebida (quanto maior a redução, maior o alívio da dor).
  2. Linhas:

    • Linha Azul (tDCS Ativo): Indica as mudanças no grupo ativo.
    • Linha Vermelha (Sham): Indica as mudanças no grupo controle.
    • Barras de erro: Representam o erro padrão (variabilidade) das medições.

Resultados Representados

  1. Linha de base (Visita 2):

    • Ambos os grupos começam com escores de dor similares, mostrando que estavam bem balanceados no início do estudo.
  2. Durante o tratamento (Visitas 6, 11 e 16):

    • O grupo tDCS ativo apresenta uma redução progressiva e significativamente maior nos escores de dor em comparação ao grupo sham, atingindo a maior diferença ao final das 15 sessões (Visita 16).
    • Diferença significativa no escore de dor na Visita 16: 1,11 pontos (IC 95%, 0,36–1,86; p = 0,03).
  3. Acompanhamento (Visitas 17, 18 e 19):

    • Após o término das sessões, o efeito positivo do tDCS ativo começa a diminuir, convergindo gradualmente com os resultados do grupo sham.
    • Na Visita 19 (2 meses após a intervenção), não há diferença significativa entre os grupos.

Interpretação

  • Eficácia Imediata: A estimulação ativa foi eficaz na redução da dor durante as sessões, com efeito máximo observado na Visita 16.
  • Perda do Efeito: A ausência de manutenção (e.g., sessões adicionais ou outras intervenções combinadas) resultou na perda do benefício ao longo do tempo.

O asterisco na Figura 2 indica que houve uma diferença estatisticamente significativa entre o grupo tDCS ativo e o grupo sham (controle) no respectivo ponto de avaliação.


Detalhes sobre o significado do asterisco:

  1. Momento do estudo:

    • O asterisco aparece na Visita 16, que corresponde ao final das 15 sessões de tratamento.
  2. Significância estatística:

    • A diferença nos escores de dor do BPI entre os grupos foi considerada significativa, com um valor de p < 0,05.
    • Isso indica que a redução da dor no grupo ativo não foi devida ao acaso, mas sim ao efeito do tratamento com tDCS.
  3. Interpretação prática:

    • Confirma que o tDCS ativo foi eficaz na redução da dor ao final do tratamento, quando comparado ao grupo controle.

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