Perrot 2019 - Dor Crônica Após Lesão Musculoesquelética

 

Checklist: Dor Crônica Após Lesão Musculoesquelética

Definição:
Dor crônica que ocorre após uma lesão no sistema musculoesquelético, incluindo dores persistentes após fraturas ósseas, especialmente quando há deformidade anatômica e alterações demonstráveis em tendões ou enteses. Devido à relação temporal entre a lesão e o início da dor crônica, a dor pós-traumática crônica é a categoria principal para este diagnóstico.


1. Critérios de Inclusão

  • Origem da Dor Musculoesquelética:

    • Dor presente há 3 meses ou mais após uma lesão no sistema musculoesquelético.
  • Tipo de Lesão:

    • Fraturas Ósseas:
      • Dor persistente após fraturas, especialmente com deformidade anatômica.
    • Alterações em Tendões ou Entezes:
      • Demonstração de mudanças anatômicas em tendões (tendinite crônica) ou enteses (entesopatia).
  • Relação Temporal:

    • Histórico de Lesão: Deve existir uma lesão musculoesquelética documentada antes do início da dor crônica.
    • Início da Dor: A dor deve ter começado após a lesão e persistir além do período de recuperação esperado.

2. Características Clínicas da Dor

  • Natureza da Dor:

    • Espontânea: Dor que ocorre sem estímulo específico.
    • Induzida por Movimento: Dor exacerbada por atividades físicas ou movimentos das articulações afetadas.
  • Sinais de Alterações Anatômicas:

    • Deformidade Anatômica: Alterações visíveis ou palpáveis na estrutura óssea após a lesão.
    • Alterações em Tendões ou Entezes: Evidências de lesão ou degeneração em tendões ou pontos de inserção tendínea nos ossos.
  • Qualidade da Dor:

    • Nociceptiva: Dor resultante da estimulação direta dos nociceptores devido a danos estruturais.
    • Possível Componente Neuropático: Em alguns casos, pode haver elementos de dor neuropática secundária às alterações estruturais.

3. Diagnóstico

  • Histórico Clínico:

    • Registro detalhado da lesão inicial (tipo, gravidade, tratamento recebido).
    • Tempo decorrido desde a lesão até o aparecimento da dor crônica.
  • Exame Físico:

    • Avaliação de deformidades anatômicas.
    • Verificação de restrição de movimento nas áreas afetadas.
    • Identificação de sinais de inflamação, como inchaço ou sensibilidade aumentada.
  • Exames Complementares:

    • Radiografias: Para identificar deformidades ósseas ou fraturas não consolidadas.
    • Ressonância Magnética (RM) ou Ultrassonografia: Para avaliar danos em tendões, ligamentos e tecidos moles.
    • Tomografia Computadorizada (TC): Quando necessário, para uma avaliação mais detalhada das estruturas ósseas.

4. Critérios de Exclusão

  • Dor Neuropática Crônica Secundária:

    • Se a dor cumprir os critérios para Dor Neuropática Crônica Secundária, deve ser classificada sob essa categoria específica.
  • Dor Visceral Referida:

    • Se a dor musculoesquelética for referida de lesões viscerais, considerar a classificação de Dor Visceral Crônica Secundária.
  • Outras Causas Musculoesqueléticas Crônicas:

    • Garantir que a dor não seja predominantemente causada por outras etiologias, como doenças degenerativas articulares ou infecções musculoesqueléticas.

5. Classificação e Codificação

  • Dor Pós-Traumática Crônica:
    • Atribuir o código correspondente à dor pós-traumática crônica, refletindo a relação temporal com a lesão inicial.
  • Alterações Estruturais Específicas:
    • Se aplicável, usar códigos adicionais para especificar a localização e o tipo de alteração anatômica (ex.: fratura com deformidade, tendinite crônica).

6. Considerações para Tratamento

  • Abordagem Multidisciplinar:

    • Envolvimento de ortopedistas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e psicólogos para manejo integral da dor.
  • Terapias Farmacológicas:

    • Anti-inflamatórios Não Esteroidais (AINEs): Para reduzir a inflamação e aliviar a dor.
    • Analgésicos Opioides: Em casos de dor severa não controlada por AINEs.
    • Terapias Neuromoduladoras: Como anticonvulsivantes ou antidepressivos, se houver componente neuropático.
  • Terapias Não Farmacológicas:

    • Fisioterapia: Para melhorar a mobilidade e fortalecer os músculos ao redor das áreas afetadas.
    • Terapias Ocupacionais: Para auxiliar nas atividades diárias e adaptar movimentos que minimizem a dor.
    • Terapias de Reabilitação: Incluindo exercícios de alongamento e fortalecimento muscular.
    • Terapias Alternativas: Como acupuntura ou massoterapia, que podem proporcionar alívio em alguns pacientes.
  • Intervenções Invasivas (se necessário):

    • Cirurgias de Correção Anatômica: Em casos de deformidades ósseas que contribuem para a dor.
    • Injeções de Corticosteroides: Para reduzir a inflamação local.
    • Bloqueios Nervosos: Em casos de dor persistente e refratária.

7. Exemplos Clínicos

  • Paciente com Fratura Óssea com Deformidade:
    • Apresenta dor crônica no membro afetado após fratura com deformidade visível, limitada a movimentos do local da fratura.
  • Paciente com Tendinite Crônica:
    • Dor persistente no tendão do manguito rotador após lesão traumática, com sinais de inflamação e restrição de movimento.
  • Paciente com Entesopatia:
    • Dor crônica na inserção do tendão no osso (entesite), associada a limitação de movimento e sensibilidade aumentada.

8. Considerações Adicionais

  • Discordância entre Dor e Alterações Estruturais:

    • Reconhecer que a intensidade e a natureza da dor podem não corresponder diretamente ao grau das alterações estruturais observadas nas imagens.
  • Monitoramento Contínuo:

    • Avaliar regularmente a progressão da dor e das alterações estruturais para ajustar o plano de tratamento conforme necessário.
  • Educação do Paciente:

    • Informar o paciente sobre a natureza da condição, opções de tratamento e estratégias de manejo da dor para melhorar a adesão terapêutica e a qualidade de vida.

Em Suma:
Para classificar corretamente a Dor Musculoesquelética Crônica Secundária Associada a Alterações Estruturais, o estudante deve:

  1. Confirmar a Origem da Dor:

    • Verificar se a dor é musculoesquelética e crônica (≥3 meses), localizada em articulações, ossos ou tendões.
  2. Identificar a Etiologia Secundária:

    • Determinar se a dor é causada por alterações estruturais resultantes de lesões musculoesqueléticas, como fraturas com deformidade ou danos a tendões.
  3. Avaliar as Características Clínicas:

    • Analisar sinais de inflamação, natureza da dor (espontânea ou induzida por movimento) e presença de alodinia.
  4. Aplicar Critérios de Exclusão:

    • Assegurar que a dor não seja neuropática ou referida de condições viscerais.
  5. Realizar Avaliações Diagnósticas Adequadas:

    • Utilizar histórico clínico detalhado, exame físico e exames de imagem para identificar e confirmar as alterações estruturais características.
  6. Planejar o Tratamento Adequado:

    • Desenvolver um plano terapêutico baseado na etiologia identificada, utilizando abordagens multidisciplinares e terapias específicas para controlar a dor e tratar a condição subjacente.

Essa abordagem sistemática facilita a correta identificação, classificação e manejo eficaz da dor musculoesquelética crônica secundária associada a alterações estruturais, melhorando a qualidade de vida dos pacientes.

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