Van Dun 2016 - Revisão sobre tDCS no Cerebelo


VAN DUN, Kim et al. tDCS of the cerebellum: where do we stand in 2016? Technical issues and critical review of the literature. Frontiers in human neuroscience, v. 10, p. 199, 2016.

Posicionamento dos Eletrodos e Estudos de Modelagem

Posicionamento Comum dos Eletrodos no tDCS Cerebelar

O setup mais utilizado posiciona o eletrodo ativo sobre um hemisfério cerebelar, a 1–2 cm abaixo e 3–4 cm lateral ao ínion.
O eletrodo de referência é normalmente colocado:
  • a. Sobre o músculo bucinador ipsilateral.
  • b. Sobre o músculo deltoide ipsilateral.
  • c. Na testa ou na área supraorbital ipsilateral.

Estimulação Bilateral

A estimulação bilateral envolve a colocação de eletrodos sobre ambos os hemisférios cerebelares.
Essa configuração pode produzir efeitos mais difusos no córtex cerebral.
A estimulação do vérmis requer que o eletrodo ativo seja colocado na linha média.

Importância da Posição dos Eletrodos

A posição dos eletrodos determina a direção do fluxo de corrente e a orientação do campo elétrico.
Estudos de modelagem buscam estimar as distribuições de densidade de corrente e os campos elétricos induzidos usando métodos computacionais, como a solução da equação de Laplace.

Estudos de Modelagem e Principais Descobertas

Parazzini et al. (2014b):

Utilizaram modelos de cabeças humanas virtuais com 77 tipos de tecidos e um formato baseado em voxel (1 mm por voxel).
Descobriram a maior densidade de corrente abaixo do eletrodo estimulador no cerebelo posterior, com mínima propagação para outras regiões, como o córtex occipital.
Recomendaram cautela ao usar tDCS cerebelar em crianças devido à possível propagação de corrente para o tronco encefálico.

Rahman et al. (2014):

Investigaram quatro montagens de eletrodos com diferentes direções de fluxo de corrente (interna, externa, lateralizada à esquerda e lateralizada à direita).
Confirmaram que o tDCS cerebelar induz fluxo de corrente de maneira eficaz e com direção uniforme.

Rampersad et al. (2014):

Utilizaram modelagem baseada em ressonância magnética (MRI) e imagem por tensor de difusão (DTI) em um homem saudável de 25 anos, com uma malha tetraédrica.
Descobriram que os campos elétricos durante a estimulação cerebelar frequentemente são inferiores e mediais à área-alvo, devido à forma côncava do cerebelo.
Mostraram que a maior parte da corrente entra perpendicularmente na substância cinzenta, sugerindo que isso pode ser mais importante do que a força do campo.

Desafios nos Estudos de Modelagem

A condutividade dos tecidos é pouco compreendida, com variação substancial nos valores relatados, especialmente para a condutividade muscular.
Variações no posicionamento do eletrodo ativo (+/-1 cm) produziram apenas pequenas mudanças na distribuição do campo, sugerindo que sistemas avançados de neuronavegação podem não ser necessários.

Posicionamento do Eletrodo de Referência

Grimaldi e Manto (2013):
Testaram um eletrodo de referência supraorbital contralateral e outro no ombro ipsilateral.
Não encontraram diferenças significativas nos resultados, sugerindo que a posição do eletrodo de referência pode não ser crítica.

Recomendações para Pesquisas Futuras
  • Estudos adicionais de modelagem e ensaios clínicos são necessários para investigar sistematicamente os efeitos do posicionamento dos eletrodos nos resultados do tDCS cerebelar.

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Área Alvo do Cerebelo
Coordenadas do Ânodo (cm)Coordenadas do Cátodo (cm)Função da Área (Ânodo)
Hemisfério Cerebelar
Direito
1–2 cm abaixo e 3–4 cm lateral ao ínion (lado direito)

Testa ipsilateral ou músculo bucinador ipsilateralControle motor fino e coordenação dos membros superiores esquerdos.
Hemisfério Cerebelar Esquerdo1–2 cm abaixo e 3–4
cm lateral ao ínion
(lado esquerdo)
Testa ipsilateral ou músculo bucinador ipsilateral

Controle motor fino e coordenação dos membros superiores direitos.
Vérmis CerebelarNa linha média, 1–2
cm abaixo do ínion
Ombro ipsilateral ou músculo deltoide ipsilateralControle do equilíbrio,
postura e movimentos axiais.
Córtex
Cerebelar Posterior
2 cm abaixo do ínion,
no centro da linha média
Braço ipsilateral ou
área supraorbital ipsilateral
Regulação de funções cognitivas e associativas conectadas ao córtex pré-frontal.
Área
Cerebelar Lateral (Bilateral)
Ambos os lados: 1–2 cm abaixo e 3–4 cm lateral
ao ínion
Ombros ipsilaterais ou região supraorbital bilateralCoordenação motora global e aprendizado motor (incluindo adaptação motora).

Notas Adicionais

Polaridade e Função:

O ânodo aumenta a excitabilidade da área-alvo, facilitando a função motora ou cognitiva associada.

O cátodo, dependendo da configuração, reduz a excitabilidade neuronal, sendo usado para inibição de atividade excessiva.

Coordenadas: As posições indicadas para os eletrodos são baseadas em estudos de tDCS cerebelar, como os mencionados no artigo e na literatura associada.
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1. Relevância e Potencial do tDCS no Cerebelo

Importância do Cerebelo:

O cerebelo possui a maior densidade de neurônios do cérebro e está envolvido em funções motoras, cognitivas e afetivas.
Suas conexões com o córtex cerebral tornam o tDCS uma ferramenta promissora para modular redes cerebelocerebrais.

Diferenciação de Efeitos:

Discussões sobre os efeitos anódicos (facilitadores) e catódicos (inibitórios) no cerebelo, com impacto variado dependendo da região e da polaridade da estimulação.

2. Desafios Técnicos e Metodológicos

Posicionamento dos Eletrodos:

A precisão do posicionamento do ânodo e do cátodo influencia diretamente a eficácia da estimulação.
Estudos de modelagem mostraram que pequenas variações na posição do eletrodo alteram minimamente os efeitos, sugerindo que neuronavegação avançada pode não ser necessária.

Condutividade dos Tecidos:

Discrepâncias nos valores de condutividade relatados para músculos e tecidos cranianos dificultam a modelagem precisa da distribuição de corrente.
A falta de conhecimento aprofundado sobre essas propriedades é um obstáculo para maior precisão em estudos experimentais.

Estimulação Bilateral vs. Unilateral:

A estimulação bilateral é descrita como mais difusa, afetando ambos os hemisférios cerebelares, enquanto a unilateral é mais específica, mas com menos estudos de validação.

3. Limitações da Literatura Atual

Falta de Ensaios Clínicos Ampla-escala:

A maioria dos estudos revisados inclui amostras pequenas, limitando a generalização dos resultados.
Não há consenso sobre os parâmetros ideais (intensidade, duração, frequência de sessões) para tDCS cerebelar.

Foco Insuficiente em Distúrbios Neurológicos:

Apesar do uso do tDCS em populações saudáveis para investigar funções motoras e cognitivas, há uma lacuna em estudos clínicos aplicados a pacientes com distúrbios cerebelares.

4. Comparação com tACS (Estimulação Transcraniana por Corrente Alternada)
O artigo explora como o tACS, uma técnica emergente, se diferencia do tDCS no contexto cerebelar.
tACS pode sincronizar redes neurais em frequências específicas, enquanto o tDCS modula a excitabilidade basal.
Porém, os mecanismos de ambos ainda não são totalmente compreendidos, exigindo mais estudos comparativos.

5. Sugestões para Pesquisas Futuras

Necessidade de Padronização:
Estudos futuros devem buscar uniformidade nos métodos, como montagens de eletrodos, intensidade e duração da corrente.

Expansão para Novas Populações:
Investigar o impacto do tDCS em condições cerebelares específicas, como ataxias ou disfunções cognitivas.

Uso de Modelagem Computacional:
  • Ampliar o uso de modelagem para prever efeitos da estimulação em diferentes faixas etárias e condições clínicas.

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